Setembro 13 2011

O ser humano desde cedo necessita ser cuidado por alguém. Na vida, ora somos ajudados (cuidados), ora nos ajudamos (auto cuidado), ora ajudamos (cuidamos). Este cuidar exerce-se diariamente de forma inconsciente. O fruto de todas estas experiências, assente numa relação recíproca eu-outro, faz-nos evoluir como pessoas. Contudo, numa sociedade cada vez mais individualista, que impele o indivíduo a cultivar valores centrados no “eu”, em detrimento do “nós”, transformamo-nos em seres solitários e não solidários. Com o decorrer do tempo, questionamos a vida, e tem-se a percepção de que “algo falta”, muitas vezes verbalizado como “sentimento de vazio”. Neste sentido, o tema voluntariado vislumbra-se como solução, ou melhor, orientação. Será que se a nossa atitude de vida fosse mais solidária, estas interrogações, inquietações não nos avassalariam?

Surge então a mudança – voluntariado: quero fazer algo por uma causa, alguém, por mim, quero sentir-me bem, útil – será este o caminho? Muitas vezes sim, outras não, pois as mudanças deverão ser profundas, internas e não superficiais. Tudo dependerá das escolhas realizadas. Existem diversas áreas possíveis para o exercício do voluntariado e um real conhecimento destas. Uma auto-reflexão sobre as minhas potencialidades e fragilidades determinará o sucesso desta nova aventura. São imensos os testemunhos positivos recolhidos junto de pessoas que exercem voluntariado. No entanto, é imprescindível cada indivíduo perceber a etapa de vida em que se encontra - estou disponível temporal, física, espiritual e emocionalmente?; privilegio as tarefas em detrimento da comunicação ou vice-versa? as minhas características pessoais orientam-me para onde? Poderão ocorrer situações de voluntariado precário pelo facto da escolha inicial não ter sido a mais acertada ou até mesmo por contingências pessoais que possam ter alterado o percurso de vida da pessoa.

Quando a escolha passa por integrar uma Instituição de Apoio a Idosos (Lar), há que ter em atenção a importância da dimensão relacional, através da relação de ajuda. Esta relação implica uma troca. Um dos interlocutores (o cuidador) deverá captar as necessidades do outro (a pessoa cuidada), com o fim de ajudá-lo a descobrir outras possibilidades de perceber, aceitar e fazer frente à sua situação actual, ajudando-o a viver com a melhor qualidade de vida possível. Para isso, colaborará com ele e com os demais intervenientes da Instituição (cuidadores formais – auxiliares de apoio a idosos, outros profissionais e cuidadores informais – família, amigos, demais voluntários) na satisfação de algumas das suas necessidades. Torna-se então premente perceber esta distinção de funções, em ordem a uma integração positiva que se coadune com o meu perfil de personalidade, de forma a que o trabalho voluntário seja positivo para todas as partes.

Esta atenção global e continuada sobre a pessoa - visão holística da pessoa, este cuidar holístico baseado na relação de ajuda, na atenção ao outro, na escuta, na compreensão, poderá, em alguns casos, tornar-se desgastante, podendo originar um estado de exaustão física, emocional e mental resultante do envolvimento intenso em situações emocionalmente desgastantes. Quando se vivencia esta situação, a pessoa que se sente esvaziada da sua energia, já não pode virar-se para o outro – esgotada, ela não poderá dar mais. A necessidade de ir além de si é humana e muito bela, mas comporta perigos, pelo que deverá ser enquadrada pelo bom senso e pelo realismo. É necessário cultivar o egocentrismo. Não se trata de se fechar aos outros, mas simplesmente de favorecer a auto-reflexão, a descoberta e a satisfação das suas necessidades com vista a restabelecer-se para se poder dar de forma sensata e equilibrada.  

A necessidade de integração de novos voluntários é premente atendendo ao actual e futuro cenário de envelhecimento demográfico. A institucionalização é uma realidade, motivada por circunstâncias diversas. O aumento da longevidade acarreta consequências preocupantes: idosos muito idosos, com dependências diversas que exigem especificidades na prestação de cuidados, com implicações na qualidade e produtividade de trabalho realizado pelo auxiliar de apoio a idosos. Assim, o envolvimento de voluntários responsáveis, empenhados e genuinamente solidários tem-se revelado um trabalho precioso para quem vive e trabalha neste Lar de Idosos, pelo que fica o convite ao aparecimento de mais voluntários. Por isso, “Vai e faz - Dá um pouco de ti; Pensa em ti pensa em mim; E nos outros também; Vai e faz - Basta um pouco de ti; Tu vais ser mais feliz; E os outros também” (refrão do hino do Ano Europeu do Voluntariado - 2011).

Bem-hajam todos os Voluntários!

 

Sabina Romão

Psicóloga na Santa Casa da  Misericórdia de Angra do Heroísmo

 

publicado por servoluntariosempre às 23:52

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