Agosto 13 2011

Estamos a celebrar o Ano do Voluntariado e a Santa Casa já organizou louváveis iniciativas para promover esta dimensão da bondade humana. Tive a honra de participar activamente, num aspecto mais ligado à espiritualidade. Gostaria de partilhar alguns temas que debatemos nessa altura.

Usa-se a palavra «alteridade» para significar um modo de pensar e de agir centrado no outro, em contraposição com o eu. Isto implica um modo de pensar já não baseado no ser e no conhecimento, mas na relação. Que quero dizer com isto? Conhecer significa dominar: os meus conhecimentos são os meus domínios em determinada matéria. Esta ideia de conhecer também se aplica a pessoas. Infelizmente. Conhecer alguém é, de alguma forma, dominá-lo, guardar o que sei dele nas minhas estruturas mentais, como se ele fosse um objecto. Ninguém pode ser assim conhecido. O outro, enquanto pessoa, não pode ser dominado. Ser pessoa é, precisamente, por princípio, recusar-se a ser conhecido, objectivado, dominado. Posso ser conhecido enquanto corpo, como psique. Não na minha totalidade enquanto pessoa. A pessoa é transcendente. Vai além da possibilidade de ser conhecida. Podemos conhecer aspectos da pessoa. Nunca a pessoa inteira. Permanece um mistério. Isto aplica-se também para a pessoa doente ou idosa.

Na sua doença, na sua idade, na sua humildade e pobreza, o outro apresenta-se como aquele que precisa de mim. Há aqui uma desigualdade entre ele e mim: ele é idoso e eu, eventualmente, novo; ele saudável, eu doente; ele, às vezes deitado, eu de pé; ele ajudado, eu o que ajuda, etc. Eu sou forte, ele débil. Mas é precisamente essa debilidade que me chama e apela à minha responsabilidade, à minha resposta. Só sou responsável se responder, só sou pessoa se precisar de outra pessoa. Ser voluntário é, então, precisar daquele que precisa de mim.

Na prática, o nosso Lar é espaço privilegiado para exercer esse voluntariado.

É verdade que o doente ou idoso precisa ser diagnosticado, estudado, compreendido, conhecido. Mas ali está, irrepetivelmente, uma pessoa. Cabe a nós fazer esta distinção, muitas vezes ténue, mas essencial entre a idade, a doença, o corpo doente, o órgão doente, por um lado, e a pessoa, que não é «mais um» idoso ou «mais um» doente.

Ressuscito aqui duas palavras cristãs, que o tempo gastou mas que, revistas, nos dão outras perspectivas: compaixão: não é ter dó. Não é ter piedade. Origem latina: cum passio (compasso) fazer os mesmos passos, a mesma paixão. E Misericórdia: não é bater no peito. Latim miser e cor, cordis: ter o coração perto do que sofre a miséria, a dor.

Cada idoso, cada doente é um rosto que revela e esconde o mistério e a transcendência da sua pessoa. Nessa relação eu/tu, não é só o doente que sai a ganhar, mas também nós que aprendemos, com ele, a reinventar o nosso ser pessoas, ser para, ser para o outro. É no doente que encontramos a nossa razão de ser pessoas, profissionais e voluntários. São Paulo dizia: há mais felicidade em dar do que em receber.

O voluntário tem que ter a consciência de que não está a fazer favor nenhum a ninguém. Somos voluntários porque precisamos dessa relação com a pessoa idosa ou doente para sermos mais humanos e porque as riquezas que essa pessoa nos pode transmitir são indispensáveis para a nossa vida. Não precisamos dos elogios de ninguém. O sorriso de uma pessoa agradecida é a nossa paga. Humildade não é cobardia: a nossa tarefa tem o seu quê de sublime. Sintamo-nos humildemente orgulhosos na nossa gratuidade.

Acima de tudo, é indispensável apreciar os pequenos gestos, porque o voluntariado não é questão de heroísmo. As pequenas atenções e a forma como nos damos nelas é que têm valor.

O voluntariado tem uma dimensão espiritual enorme. Com os nossos idosos e doentes somos companheiros de viagem. Encetamos uma viagem espiritual lado a lado: viagem de reconciliação, de paz e de sentido de vida a que a oração não é, também, alheia. Se nos dermos ao outro, nem imaginamos a riqueza que o outro terá para nos dar. Mas, como tudo na vida, só recebemos conforme o que dermos.

 

Pe Júlio Rocha

Capelão da Santa Casa da Misericórdia

 de Angra do Heroísmo

 

publicado por servoluntariosempre às 19:42

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